Em 1487, Papa alertou sobre terríveis riscos da imprensa: em 2026, ele faz o mesmo com a IA

O século XV estava chegando ao fim e a imprensa parecia maravilhosa, quase providencial, para a Igreja Cristã. A adoção dessa invenção pelas instituições eclesiásticas foi entusiástica, pois lhes permitia ampliar sua missão.

Não demorou muito para que o discurso mudasse significativamente. Na bula papal Inter Multiplices de 1487, o Papa Inocêncio VIII a elogiou, mas alertou sobre seus riscos: assim como servia para difundir a palavra de Deus, também poderia servir para disseminar heresias e ideias falsas. Foi então que a censura foi introduzida, segundo a qual nenhum livro poderia ser impresso sem a aprovação das autoridades eclesiásticas. Isso lançou as bases para o futuro Index Librorum Prohibitorum, que estabeleceu uma lista de obras proibidas para toda a cristandade.

Isso não se mostrou muito benéfico. Martinho Lutero, de fato, aproveitou-se dessa invenção divina para distribuir sua propaganda durante a Reforma Protestante, e se esse movimento acabou tendo sucesso, foi sem dúvida graças à imprensa. Não é por acaso que Lutero é considerado o primeiro autor best-seller da história.

Encíclicas e avanços tecnológicos

Em 1891, o Papa Leão XIII publicou sua encíclica Rerum Novarum, possivelmente a mais famosa encíclica social da história. Nela, o pontífice focou nos direitos dos trabalhadores como resposta à perturbadora Revolução Industrial. Ele denunciou a concentração de riqueza e novas tecnologias "nas mãos de poucos" e alertou que isso estava transformando os trabalhadores em escravos.

Avançando, há noventa anos, Pio XI publicou a Vigilanti Cura (1936), dedicada exclusivamente ao cinema. Nela, ele reconheceu o progresso tecnológico que a produção cinematográfica representava, mas alertou que, se não fosse estritamente regulamentada, se tornaria o maior instrumento de corrupção moral e manipulação em massa da história.

Essa mensagem foi seguida pela encíclica Miranda Prorsus (1957) de Pio XII, que estendeu esse alerta ao rádio e à televisão, que tinham tanta ou até mais capacidade do que o cinema de serem benéficas e nocivas à humanidade.

Houve outras encíclicas sociais relacionadas à tecnologia: a Pacem in Terris (1963), de João XXIII, abordou os perigos da energia atômica, enquanto a Evangelium Vitae (1995), de João Paulo II, foi um alerta contra as técnicas biomédicas eugênicas e a manipulação de embriões.

O curioso é que a maioria dessas encíclicas foi publicada muitos anos depois de certos avanços tecnológicos já terem ocorrido. Isso poderia levar alguém a pensar que existem uma ou mais encíclicas dedicadas à internet, aos telefones celulares ou às redes sociais. Não existem, embora esses temas tenham sido mencionados por Papas recentes em outras mensagens.

Magnifica Humanitas

Por isso, é surpreendente que o Papa Leão XIV tenha dedicado uma encíclica inteira à inteligência artificial. Ele o fez apenas três anos após o lançamento do ChatGPT, e com um título singular: Magnifica Humanitas (2026). Um fato curioso: Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV, formou-se em matemática em 1977 pela Universidade Villanova, na Filadélfia. Esta encíclica segue uma linha argumentativa histórica muito clara: em muitas ocasiões, quando surge uma tecnologia disruptiva, o Vaticano assume o papel de um "freio ético" e tenta alertar para algo crucial: os avanços técnicos e tecnológicos devem ser subordinados aos seres humanos.

Na Magnifica Humanitas, o discurso é familiar e razoável: alerta que as grandes empresas de IA acabarão por impor sua visão moral a todo o planeta. Não se trata apenas de que os gigantes da computação em nuvem (Amazon, Microsoft, Google) ou empresas como a OpenAI ou a Anthropic dominem esse mercado comercialmente: trata-se de que esse domínio também se traduz em uma forma de influência ainda mais preocupante do que a do cinema ou da televisão.

A encíclica também alerta para como a IA está causando um "deslocamento cognitivo", no qual os humanos acabam preferindo que os algoritmos pensem por eles em vez de fazerem um esforço reflexivo. O texto é muito extenso (40.000 palavras, o equivalente aproximado a um romance de 150 páginas) e ambicioso, abrangendo muitas outras áreas, mas a mensagem inequívoca é este alerta sobre os perigos dessa tecnologia.

Se analisarmos todo esse catálogo de advertências papais sob uma perspectiva histórica, é impossível não perceber o paradoxo. A maioria das tecnologias que o Vaticano outrora denunciou como ameaças existenciais acabou por tornar o mundo um lugar melhor, mais próspero e mais conectado. A imprensa democratizou a cultura, a Revolução Industrial elevou o padrão de vida global, o cinema e a televisão enriqueceram o imaginário coletivo e a biotecnologia salva vidas.

A história nos mostra que essas previsões catastróficas dos Papas nunca se concretizaram totalmente, mas devemos ter cautela. O valor dessas encíclicas reside não em sua capacidade de prever o futuro, mas em sua função como contrapesos éticos. É bom e necessário que alguém alerte sobre os riscos, porque esses perigos eram e continuam sendo reais.

Imagem | La Santa Sede

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem