A
Diretoria de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF) derrubou perfis em
redes sociais e abriu um inquérito para investigar a chamada trend “caso ela
diga não”, que simula reações violentas após a recusa de pedidos de namoro ou
casamento.
Segundo
a PF, a ofensiva busca desarticular a disseminação de conteúdos que incentivam
a violência contra mulheres. Nos vídeos publicados nas redes sociais, jovens
encenam situações em que fazem pedidos românticos e, após a suposta recusa,
simulam agressões, como socos em objetos ou golpes com faca. A informação foi
confirmada nesta segunda-feira (9) ao blog da jornalista Julia Dualibi.
O
tema também deve avançar no Congresso Nacional. Nesta terça-feira (10), a
Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados vota um requerimento para
que a Procuradoria-Geral da República investigue a publicação viral.
O
pedido foi apresentado pelo deputado federal Pedro Campos e solicita a adoção
de medidas para responsabilização criminal por apologia à violência.
Conteúdo viral
A
trend ganhou grande repercussão nas redes sociais ao mostrar homens simulando
socos, chutes e facadas em mulheres após receberem um “fora”. O conteúdo passou
a circular justamente em meio ao aumento do debate público sobre a violência
contra mulheres no Brasil.
A
deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) publicou um vídeo nas redes sociais
para denunciar a prática e informou que acionou o Ministério Público para
investigar os perfis responsáveis pelas publicações.
“Como
as redes não são regulamentadas no Brasil, eles chamam isso de liberdade. Ou
vão chamar de brincadeira. Um absurdo, por isso eu acionei o Ministério Público
para investigar esses perfis e outros que estão cometendo esse crime de incitar
o ódio contra as mulheres”, afirmou a parlamentar.
Na
avaliação da deputada, o caso reforça a necessidade de regulamentação das
plataformas digitais. Duda também defende a aprovação de um projeto de lei de
sua autoria que tipifica como crime a misoginia coordenada e coletiva praticada
nas redes sociais.
Machosfera
O
avanço desse tipo de conteúdo também tem sido associado à chamada “machosfera”,
termo usado para descrever comunidades online voltadas ao público masculino que
promovem discursos de ódio contra mulheres e incentivam comportamentos
agressivos.
Entre
esses grupos estão os chamados “red pills”, movimento que defende que homens
estariam sendo manipulados ou oprimidos por mulheres e pela sociedade
contemporânea.
Outro
grupo citado são os chamados “incels”, termo derivado do inglês involuntary
celibate (celibatário involuntário), que descreve homens que afirmam não
conseguir estabelecer relações afetivas ou sexuais e atribuem essa situação às
mulheres ou à sociedade.
Debate sobre criminalização
Diante
do crescimento desses conteúdos, setores da sociedade defendem que a misoginia
passe a ser tipificada como crime.
Em
outubro do ano passado, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou
um projeto que prevê pena de dois a cinco anos de prisão para esse tipo de
prática.
Apesar
disso, especialistas apontam dificuldades na responsabilização das plataformas
digitais. Atualmente, sem decisão judicial, o único tipo de conteúdo que deve
ser retirado imediatamente das redes é aquele relacionado a crimes sexuais,
após notificação da vítima.
Violência contra mulheres
Dados
do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o Brasil registra
atualmente quatro feminicídios por dia. Em 2025, foram contabilizados 1.547
casos.
Segundo
o levantamento, o número de feminicídios vem crescendo anualmente desde 2015.
Somente em janeiro deste ano, 131 mulheres foram vítimas do crime, cerca de 5%
a mais que no mesmo período do ano passado. No mesmo mês, o país registrou
cerca de 5.200 estupros, média de 168 casos por dia.
Casos
de violência contra mulheres podem ser denunciados pelo telefone 180, canal
nacional de atendimento.
(Opinião
CE)
