A Polícia Civil indiciou um médium e líder de um centro
espírita pelos crimes de estelionato e abuso contra um casal de idosos, em
Fortaleza. As filhas das vítimas é denunciaram a falta de mais de R$ 5 milhões
das contas dos pais, que têm mais de 80 anos e são empresários do ramo
imobiliário.
A investigação é conduzida pela Delegacia de Proteção ao
Idoso. A denúncia foi apresentada por três das quatro filhas do casal. O
suspeito é casado com a outra filha, que não participa da denúncia.
O g1 optou por não divulgar o nome do líder espiritual
neste momento para preservar a identidade das vítimas e também porque o
Ministério Público do Ceará (MPCE) solicitou novas diligências à Polícia Civil
para complementar as investigações. O suspeito será citado nesta reportagem por
meio das iniciais: F.G.
Médium dizia incorporar Napoleão,
Tutancâmon e Ayrton Senna
Conforme os depoimentos reunidos na investigação, o casal
de idosos frequentava o centro espiritual comandado pelo investigado há mais de
duas décadas. No local, era utilizado o chá alucinógeno ayahuasca.
Testemunhas afirmam que o médium dizia incorporar espíritos
de personalidades conhecidas para oferecer orientações espirituais aos
frequentadores.
Entre as entidades citadas estariam Napoleão Bonaparte, o
faraó Tutancâmon, Ayrton Senna, Leonardo da Vinci, Princesa Isabel e Pero Vaz
de Caminha.
Segundo relatos, quando o casal de empresários precisava
tomar decisões importantes relacionadas à empresa da família, era levado ao
centro espiritual para receber os "conselhos espirituais".
Quando o caso começou
A relação entre o médium e a família teria começado em
1998, quando o empresário passou a frequentar o centro espiritual. Com o tempo,
o líder religioso também passou a participar de encontros familiares e iniciou
um relacionamento com uma filha do casal, que havia se divorciado há pouco
tempo.
Eles se casaram em 2007, sob regime de comunhão total de
bens. Segundo as outras filhas, esse regime teria sido estabelecido sem
conhecimento do restante da família.
Nos depoimentos à polícia, as irmãs afirmaram que os
primeiros conflitos começaram ainda no fim da década de 1990, pouco tempo após
o médium se aproximar da família.
Uma das filhas teria sido acusada, durante sessões
espirituais, de roubar documentos importantes da empresa familiar. Segundo os
relatos, os mesmos espíritos também teriam afirmado que o marido dela planejava
matar o fundador da empresa.
Após essas acusações, a filha foi desligada da empresa e o
marido perdeu contato com os sogros.
Controle das finanças
Segundo as denunciantes, a situação teria se agravado nos
últimos anos. Elas afirmam que perderam acesso às contas bancárias dos pais a
partir de 2021, enquanto o médium passou a administrar as finanças dos idosos.
De acordo com os relatos, ele teria acesso às senhas
bancárias, aos aplicativos financeiros e ao apartamento do casal, localizado na
Avenida Beira-Mar, área nobre de Fortaleza.
O patrimônio da família inclui uma empresa do setor
imobiliário com atuação principalmente na Praia do Cumbuco, em Caucaia, na
Região Metropolitana.
Para onde teria ido o dinheiro
De acordo com as denúncias apresentadas pelas filhas e com
as investigações da Polícia Civil, o dinheiro movimentado sob influência do
médium F.G. teria sido direcionado para diferentes destinos. As movimentações
investigadas somariam um prejuízo estimado em cerca de R$ 5 milhões nas contas
dos idosos.
Entre os principais repasses
identificados estão:
Doação de R$ 1,4 milhão para
terceiros:
o maior valor individual teria sido destinado a sete irmãos do marido de uma
das filhas do casal. Segundo a denúncia, F.G. teria convencido a sogra de que
os espíritos dos pais dessas pessoas pediam ajuda financeira porque elas
estariam enfrentando dificuldades e problemas de saúde.
Transferência de R$ 70 mil para a
esposa do médium: o valor foi depositado na conta da filha mais velha do casal, que
é casada com F.G.
Transferência de R$ 66 mil para o
centro espírita: o dinheiro foi enviado diretamente para a conta da instituição
religiosa comandada pelo médium.
Comissões ligadas à empresa da
família:
parte da renda mensal de F.G. teria vindo de comissões relacionadas a vendas da
empresa imobiliária dos sogros, justificadas, segundo as denúncias, por
supostas orientações espirituais dadas por ele nos negócios.
Doação de bens imóveis: além de transferências em
dinheiro, os sogros também teriam doado terrenos para a construção de dois
templos do centro espírita comandado por F.G., na Grande Fortaleza.
O que diz a polícia
A Polícia Civil indiciou o investigado pelos crimes de
estelionato e abuso contra idosos. Segundo os investigadores, ele teria usado
sua influência religiosa para convencer os idosos a realizar transferências de
dinheiro.
O valor total do prejuízo ainda é apurado, mas as denúncias
apontam que os desvios podem chegar a cerca de R$ 5 milhões.
O que diz a defesa
Em depoimento, o médium negou ter influenciado os sogros a
fazer transferências de dinheiro. Ele afirmou que as mensagens espirituais
tinham “cunho positivo” e incentivavam a caridade. Também declarou que apenas
ajudava a sogra na gestão financeira, a pedido dela.
Segundo ele, parte de sua renda atual viria de um
adiantamento de herança concedido pelo sogro há cerca de sete anos.
O que diz a família
Três das quatro filhas do casal afirmam que o médium teria
se aproveitado da vulnerabilidade dos pais, especialmente após o empresário ser
diagnosticado com Alzheimer em 2018.
Elas relatam que o líder religioso utilizava sessões
espirituais para influenciar decisões pessoais e financeiras dos idosos.
Segundo as denúncias, duas filhas foram afastadas da empresa da família após
orientações espirituais.
Os advogados das três irmãs que realizaram a denúncia,
Leandro Vasques e Gabriellen Melo, afirmaram em nota que "a família das
vítimas buscou as autoridades competentes após identificar indícios de
exploração financeira e possível abuso da vulnerabilidade decorrente da idade avançada
das vítimas".
"Os representantes legais da família reiteram
confiança nas instituições e aguardam o regular andamento do processo, com a
devida apuração dos fatos em ação penal e responsabilização dos
envolvidos", completa a nota dos advogados.
O que dizem os idosos
Em depoimento à polícia, a idosa afirmou que realizou as
doações de forma consciente e que permitiu que o genro tivesse acesso às contas
bancárias e senhas porque tinha dificuldade para utilizar aplicativos
financeiros.
Nos últimos anos, segundo os relatos, ela passou a
apresentar comportamento hostil em relação às filhas denunciantes, chegando a
acusar uma delas de tentativa de envenenamento e desvio de dinheiro.
