Na
audiência transmitida ao vivo no Senado na última terça-feira, 2, o perito
Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes, fez revelações que
colocam em xeque a legalidade de uma das operações mais controversas do Supremo
Tribunal Federal (STF): a busca e apreensão, às vésperas das eleições de 2022,
contra empresários acusados de trocar mensagens em grupos de WhatsApp
supostamente favoráveis a um golpe de Estado. O infiltrado responsável pelo
envio das informações a Moraes, trata-se de Lucas Mesquita, documentarista e
jornalista de Brasília, militante de esquerda que já ficou conhecido por
infiltrações em grupos de WhatsApp de figuras de direita, hoje ele trabalha
como assessor do governo Lula.
Segundo
Tagliaferro, o que foi apresentado como ação amparada por investigação técnica
e provas consistentes, na verdade teria sido montado a posteriori — depois da
operação já realizada. Ele afirma que foi coagido a produzir documentos com
datas retroativas, incluindo mapas mentais, relatórios e pareceres que dariam
aparência de legalidade à decisão de Moraes, quando na verdade, segundo ele,
tudo havia sido feito com base apenas na reportagem do jornalista Guilherme
Amado, publicada no Metrópoles.
Quem é o infiltrado
Lucas
Mesquita, 35 anos, é jornalista e documentarista radicado em Brasília. A sua
carreira começou nos bastidores do poder, como assessor de imprensa da chapa
Dilma-Temer nas eleições de 2010. A experiência lhe deu acesso precoce ao
centro das decisões políticas.
Flamenguista
convicto, Mesquita se envolveu em uma disputa com a então presidente do clube,
Patrícia Amorim, em 2012. Produziu conteúdos satíricos contra a gestão e, após
pressões da diretoria, quase foi expulso do quadro associativo. Com o tempo,
abandonou a militância esportiva e mergulhou na produção audiovisual. Fundou
uma microempresa de produção fotográfica e cinematográfica em Brasília e, junto
ao irmão Gabriel Mesquita, passou a dirigir e roteirizar documentários
políticos.
Em
2022, dirigiu o curta “Contra Golpe”, que documentou os atos pela “defesa da
democracia” realizados na Faculdade de Direito da USP. A produção, que teve
apoio do Grupo Prerrogativas, registrou a leitura da “Carta às Brasileiras e
aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, divulgada como
reação à candidatura de Jair Bolsonaro.
No
mesmo ano, lançou o documentário “Eles Poderiam Estar Vivos”, também apoiado
pelo Prerrogativas. A peça atribuía ao “negacionismo do governo” a
responsabilidade por metade das mortes na pandemia. A narrativa baseou-se em
depoimentos alinhados ao campo político da esquerda ou críticos de Bolsonaro,
como a infectologista Luana Araújo e o epidemiologista Pedro Hallal, professor
da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do estudo Epicovid-19,
ambos participantes da CPI da Covid.
Foi
Hallal quem projetou a ideia de que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas,
caso o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade da média global. A estimativa
viralizou nas redes e se tornou instrumento político contra Bolsonaro. O
argumento, no entanto, ignorava fatores determinantes como desigualdade,
infraestrutura de saúde, subnotificação, política de testagem e dinâmica
regional da pandemia. A cifra, embora impactante, se sustentava mais em
pressupostos militantes do que em rigor científico.
O modus operandi
Em
pelo menos duas ocasiões, Lucas Mesquita se infiltrou em grupos privados de
WhatsApp que reuniam empresários, políticos e juristas ligados à direita. O
conteúdo extraído por ele serviu tanto como base para decisões judiciais quanto
como munição em reportagens de grandes veículos.
Um
desses espaços foi o Parlatório, criado pelo jornalista Carlos Marques, diretor
editorial das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro e ligado ao LIDE, grupo
empresarial fundado pelo ex-governador João Doria. O Parlatório reunia cerca de
250 empresários, intelectuais, jornalistas, publicitários e políticos — entre
eles o ex-ministro e então candidato ao Senado Sergio Moro. Mesquita permaneceu
nesse ambiente por cerca de dois ou três anos, em silêncio, apenas observando.
A
ruptura veio em outubro de 2022, quando Mesquita criticou abertamente a
reaproximação de Moro com Jair Bolsonaro. Publicou um vídeo e um texto duros —
chamando o ex-juiz de “tchutchuca de miliciano” — e acabou expulso, segundo ele
por pressão de Moro. Na GloboNews, a jornalista Andréia Sadi apresentou o
episódio como se o vazamento tivesse partido de “participantes
desconfortáveis”, mas tudo indica que a operação foi cuidadosamente planejada
para ter a repercussão midiática.
O
mesmo modus operandi foi aplicado ao chamado “grupo dos empresários”, cujas
mensagens foram obtidas de forma semelhante e repassadas ao portal Metrópoles.
As mensagens do grupo que nossa reportagem teve acesso mostram que Lucas fez de
tudo para dissimular sua militância de esquerda, tentando se fazer passar por
alguém de centro para ganhar a confiança do grupo.
“Infelizmente
vai ser segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Mas ainda tenho esperança de
alguém conseguir aglutinar as forças de centro e ir pro segundo turno, para aí
sim derrotar Lula ou Bolsonaro”, escreveu Lucas no dia 24 de abril de 2022.
Em
maio, Guilherme Amado publicou a primeira reportagem com vazamento do grupo dos
empresários mirando declarações de Luciano Hang sobre o padre Julio
Lancellotti. Na ocasião, os integrantes do grupo tentaram encontrar quem seria
o “X9” (delator infiltrado), excluindo alguns integrantes inativos, mas não
suspeitaram de Lucas. Por causa da reportagem, Hang foi condenado pela Justiça
de São Paulo a pagar danos morais a Lancellotti por ter chamado o religioso de
“bandido”. A juíza Eliana Adorno de Toledo Tavares determinou que Hang pagasse
R$ 8 mil de indenização.
“Pessoal
aqui no grupo temos um X9, um dedo duro. Olha só onde foi parar a nossa
conversa aqui no grupo. O membro que teve coragem de passar as mensagens para a
imprensa também deveria ter a coragem de se posicionar agora e dizer o porquê
fez isso. O que quis deixar bem claro na minha posição foi a militância do
Lancellotti em apoiar um líder que defende o comunismo pelo mundo e pela
América Latina que são geradores da miséria. Não sou contra a parte social,
falei dele, desse caso específico, da militância de esquerda”, escreveu Hang no
grupo após o primeiro vazamento.
No
dia 17 de agosto, dia da publicação da reportagem do Metrópoles, a equipe de
Amado enviou mensagens aos integrantes do grupo solicitando declarações sobre
as acusações. Muitos compartilharam no próprio grupo as demandas recebidas,
entre eles Lucas, que perguntava o que deveria fazer.
Meses
depois, em janeiro de 2024, Lucas foi nomeado para um cargo comissionado como
assessor no recém-criado Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da
Empresa de Pequeno Porte, comandado por Márcio França.
Nas
redes sociais, Lucas mantém uma presença discreta, mas não invisível. Registra
encontros com figuras como Lula, Flávio Dino e Alexandre de Moraes. Em
comentários e interações, chegou a dialogar com Letícia Sallorenzo, mais
conhecida pelo codinome “Bruxa” — a mesma que atuava como colaboradora informal
do TSE no monitoramento de opositores.
A operação contra os empresários
Voltando
à audiência do Senado. Por videoconferência, Tagliaferro narrou que, em agosto
de 2022, recebeu ordens do assessor Airton Vieira, braço-direito de Alexandre
de Moraes, para montar documentos que dariam lastro à operação contra os
empresários. Disse que havia pressa no gabinete: o plano era executar as buscas
numa segunda-feira; elas ocorreram na terça, 23 de agosto.
Na
semana anterior, em 17 de agosto, o Metrópoles tinha publicado reportagem com
diálogos atribuídos a integrantes do grupo “Empresários & Política”, entre
eles Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa) e Afrânio Barreira (Coco
Bambu). Entre as diversas mensagens e comentários de cunho político — a peça
citou, por exemplo, a frase “Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de
vezes”, atribuída a um participante. Não havia qualquer fala criminosa de Hang
no material publicado, mesmo assim, ele foi alvo de busca e apreensão e teve os
perfis bloqueados apenas por participar do grupo.
A
operação contra os empresários foi cumprida em cinco estados no dia 23 de
agosto de 2022. Foram alvos nomes de peso do empresariado nacional. A Polícia
Federal apreendeu celulares, promoveu quebras de sigilo e bloqueou contas nas
redes — inclusive as de Hang, que ficaram mais de dois anos fora do ar, com
reativação só em setembro de 2024. Em agosto de 2023, cerca de um ano depois, o
STF arquivou o inquérito em relação a seis dos oito empresários por “ausência
de justa causa”, mantendo Hang e Nigri por mais 60 dias. Até hoje não há
denúncia formal apresentada nesse caso.
A
operação contra os empresários foi deflagrada apenas dez dias antes do primeiro
debate presidencial na Band. A medida atingiu em cheio a base de apoio de Jair
Bolsonaro: além de apreensões e quebras de sigilo, empresários tiveram suas
redes bloqueadas, como Luciano Hang, um dos principais amplificadores digitais
do bolsonarismo. A ausência dessas vozes reduziu a capacidade de mobilização
nas redes e serviu como aviso ao setor privado de que manifestações públicas em
favor do presidente poderiam gerar retaliações judiciais, produzindo um efeito
de intimidação que limitou o engajamento empresarial durante a campanha.
Ao
mesmo tempo, a operação foi explorada politicamente. A narrativa do “golpismo
empresarial” se consolidou no noticiário e deu munição ao discurso de Lula nos
debates, reforçando a ideia de que Bolsonaro e seus aliados representavam uma
ameaça à democracia. Com vozes empresariais censuradas e a narrativa adversária
amplificada, Bolsonaro entrou no horário eleitoral e nos debates em desvantagem
estratégica, tanto em termos de recursos financeiros quanto de alcance digital.
Até
então, suspeitava-se que a medida havia sido deflagrada a partir da série do
Metrópoles — a própria decisão tornada pública pelo STF menciona as
reportagens. No dia 23, porém, a então âncora da CNN Daniela Lima teria
“apurado” que a ação teve como fundamento um pedido da PF que apurava a
organização e o financiamento de atos antidemocráticos, conhecido como
inquérito das milícias digitais.
Entretanto,
segundo Tagliaferro, esta informação era falsa: a única base da decisão foi a
reportagem do Metrópoles. “O que aconteceu foi que Moraes determinou que seus
assessores extraíssem as falas da matéria e as formatassem em um relatório. Só
que aquilo era um grupo privado de WhatsApp. Seria criminoso da minha parte
atestar a autenticidade daquelas conversas”, afirmou.
A
denúncia de Tagliaferro deve abrir espaço para novas apurações, dentro e fora
do Congresso. Senadores da oposição já pediram acesso aos arquivos citados e
prometem convocar Airton Vieira e autoridades da PF para explicações.
A ação retroativa
A
parte mais grave da denúncia veio em seguida. Tagliaferro declarou que, depois
da operação já executada, ele foi procurado por Airton Vieira, que não sabia
usar computador, para “ajudar a construir uma história”. O objetivo: forjar a
existência de uma investigação prévia que justificasse a ação do STF.
Ele
contou que recebeu arquivos com “PETs” já marcadas e instruções para produzir
mapas mentais ligando os empresários a supostos financiadores de atos
antidemocráticos e redigir um relatório com data de dias antes da operação.
Tudo isso, afirma ele, para que Moraes pudesse retirar o sigilo do processo e
mostrar à imprensa que havia embasamento além da matéria jornalística.
“Assinei
como se fosse um relatório do Supremo Tribunal Federal. Mas eu não era servidor
nomeado. Fiz porque fui instruído. E está tudo documentado: os arquivos, as
datas de criação, os metadados, os hashes. Tudo com perícia técnica”, garantiu.
Durante
a audiência, Tagliaferro exibiu capturas de tela, datas de criação de
documentos e o próprio mapa mental que, segundo ele, foi usado por Moraes para
justificar as medidas. Nele, os empresários apareciam ligados a nomes como
“Custer”, “Bezerra” e “Álvaro dos Santos”, todos conectados por setas a um
suposto centro de financiamento de atos golpistas.
Segundo
o ex-assessor, esse documento foi criado em 28 de agosto de 2022, seis dias
após a operação — mas foi incluído no processo como se tivesse sido feito em 22
de agosto. Outro relatório foi juntado aos autos em 29 de agosto, embora também
tenha sido confeccionado depois da operação, não antes, como o STF teria
afirmado.
“Essa
fraude é gravíssima. Se isso foi feito nesse processo, o que não pode ter sido
feito em outros, todos físicos, todos guardados a sete chaves no gabinete do
ministro?”, questionou.
(Ceará
Antenado)
