Brasileira condenada por recrutar prostitutas na Macedônia denuncia irregularidades

A brasileira Marliene de Jesus Neves, presa há nove meses na Macedônia do Norte, cumpre pena de 5 anos e 6 meses de prisão após um processo que sua defesa classifica como repleto de falhas e violações de direitos humanos. Condenada por recrutamento e intermediação de prostituição, ela afirma que seu trabalho era apenas administrativo em uma empresa regularizada em Portugal, onde residiu por anos.

Em carta enviada à imprensa, Marliene disse que atuava na organização de agendas, atendimento telefônico e redes sociais, sem envolvimento na exploração de mulheres. “Eu apenas atendia telefones, organizava agendas e cuidava de redes sociais. Nunca explorei mulheres ou recrutei pois todas eram amigas de longa data ou indicação de outras da qual prestei o mesmo serviço, eu tentei protegê-las”, escreveu.

Ela também sustenta que entrou em conflito com um grupo criminoso albanês atuante nos Bálcãs, envolvido em prostituição ilegal e violência sexual. Três meses após denunciar integrantes do grupo, foi presa. Segundo a defesa, ela agora recebe ameaças diretas de morte caso seja transferida para o presídio onde estão membros da organização. “Não me coloco como vítima absoluta. Reconheço meus erros, mas não sou criminosa de alta periculosidade. Estou sendo usada como bode expiatório”, argumentou.

O advogado de Marliene, Gustavo Corrêa, afirmou que sua cliente foi condenada após aceitar um acordo sem conhecimento do que assinava, considerando ainda a barreira da língua estrangeira. “O advogado lá não possui voz como aqui no Brasil, considerando o sistema judiciário”, explicou. A defesa sustenta que ela foi coagida a admitir parte das acusações para evitar uma pena mais alta.

Além disso, segundo o advogado, houve erros jurídicos graves no processo. Um deles seria a acusação de lavagem de dinheiro, relacionada a valores enviados por Marliene para familiares no Brasil e em Portugal. “Não houve ocultação ou dissimulação de recursos. No máximo, poderia ser discutida a hipótese de evasão de divisas. Transformar o envio de ajuda familiar em ‘lavagem’ é um erro técnico grave”, disse ele.

O caso ganhou novos contornos após um e-mail enviado nesta última quarta-feira (3/9) ao advogado pelo setor consular da Embaixada do Brasil em Sófia, na Bulgária, responsável pela jurisdição da Macedônia do Norte. No endereço eletrônico, ao qual o portal LeoDias teve acesso, a embaixada informa que encaminhou duas notas verbais às autoridades locais, em fevereiro e julho, mas não recebeu qualquer resposta oficial sobre a prisão ou condenação de Marliene.

“Oficialmente, não fomos avisados nem da prisão, nem da condenação. A embaixada também solicitou, há um mês, informação, por intermédio da Secretaria de Estado em Brasília, para a embaixada da Macedônia do Norte. Até o presente momento, ainda sem resposta. Vamos voltar a solicitar informação oficial para que, somente assim, sabendo de detalhes de onde se encontra exatamente a senhora Marliene de Jesus Neves naquele país, possa-se visitá-la”, diz o comunicado da embaixada.

Ao mesmo tempo, o advogado local que acompanha o caso contestou a versão, afirmando que a embaixada da Macedônia em Brasília não recebeu qualquer solicitação ou correspondência. Ele pediu que a defesa brasileira estabeleça contato direto com representantes diplomáticos da Macedônia para esclarecer o impasse.

Situação no cárcere

Marliene relata ainda falta de atendimento médico adequado, recusa de medicamentos controlados, intimidações por parte de agentes prisionais e risco de ser enviada ao mesmo presídio onde estão integrantes do grupo criminoso com quem se desentendeu.

Mãe de um filho menor e ré primária, ela teve negado o pedido de prisão domiciliar, mesmo após apresentar passaporte apreendido e comprovação de residência fixa. O menino, que estava com a mãe no momento da prisão, foi levado ao Brasil após intervenção de órgãos de proteção à infância.

(Portal Leo Dias)

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