Em meio a disparada de casos de afastamentos por doença
mental no trabalho, agora, as empresas devem se preocupar – pra valer – com o
assunto. Nesta terça-feira, entram em vigor as novas regras para segurança e
saúde no trabalho no país.
Uma profissional que preferiu não divulgar o nome conta o
que vivenciou na empresa onde trabalhava. Em um cenário de equipe reduzida,
excesso de trabalho, pouca organização e atendimento a clientes importantes, o
resultado foi afastamento por burnout. Dias após retornar ao trabalho, um homem
foi contratado no lugar dela para fazer a mesma atividade, porém com salário
maior.
“Tentei falar, não fui ouvida. Tentei comunicar de outras
formas, não fui, então eu precisava de um descanso. Fui, tirei esse tempo, 30
dias, quando eu voltei, eu fiquei uma semana e depois dessa uma semana eles me
desligaram. A justificativa foi que eles iriam trazer uma pessoa de um outro
perfil, que era diferente do meu. Eu fiquei muito, muito impactada assim, muito
mesmo. Eu não pensei que essas pessoas pudessem fazer isso comigo”.
Em 2025, foram mais de 530 mil afastamentos por transtornos
mentais e comportamentais, segundo o Ministério da Previdência. Em 2021, ainda
na pandemia de covid-19, o número era um terço disso e, desde então, veio
aumentando ano a ano.
É o caso da produtora Letícia Tavares. Ela lutava contra
uma depressão que começou na pandemia. A rotina de trabalho agravou o quadro
dela, que atingiu o ápice em 2023.
“Foi quando eu sofri um episódio depressivo muito severo
assim, é, que atentei contra a minha própria vida e eu precisei me afastar para
cuidar da minha saúde mental. Cuidar de mim. No total, eu passei três meses
afastada da produtora. A produtora onde eu trabalho até hoje, inclusive, foi
extremamente atenciosa, cuidadosa comigo durante o período que eu precisei me
afastar, e eles me ofereceram todo o apoio possível. Eu tenho sorte de ainda de
estar num lugar onde os colaboradores são vistos acima de tudo como seres
humanos”.
Com esse cenário em vista, a Norma Regulamentadora número
1, a NR-1, que trata dos riscos que a atividade da empresa oferece aos
trabalhadores, foi atualizada para incluir os riscos psicossociais, ou seja, à
saúde mental.
O diretor científico da Associação Nacional de Medicina do
Trabalho, Ricardo Beça, explica que as empresas vão ter que olhar com cuidado
para a organização do trabalho.
“Pressão excessiva, metas incompatíveis, sobrecarga,
jornada mal organizadas, assédio, violência, conflitos e falhas de comunicação.
E é importante frisar também que não é para fazer um diagnóstico psiquiátrico
do trabalhador. É para identificar e controlar os fatores do trabalho que podem
gerar ou agravar um adoecimento. Essa atualização é importante porque coloca a
saúde mental na lógica da prevenção. Antes, o tema aparecia só quando já havia
alguma crise".
O médico afirma que os trabalhadores precisam ser
conscientizados, mas a responsabilidade não pode ser jogada pra cima deles.
“Saúde mental no trabalho é uma responsabilidade
compartilhada. O trabalhador precisa buscar ajuda e a organização precisa
identificar e controlar os riscos do trabalho também”.
Segundo o Ministério do Trabalho, durante os primeiros 90
dias, a fiscalização vai orientar as empresas e indicar adequações. Depois
disso, penalidades podem ser aplicadas, como multas ou embargos.
Se você tem pensamentos em tirar a própria vida ou conhece
alguém assim, procure ajuda na rede pública ou ligue para o Centro de
Valorização da Vida – 188.
