Diante
do cenário de instabilidade política na Venezuela, após o anúncio da captura do
presidente Nicolás Maduro, venezuelanos que vivem no Brasil acompanham com
atenção os desdobramentos do ataque. Maduro foi capturado pelos Estados Unidos
no último sábado (3), durante uma ofensiva que deixou cerca de 80 mortos,
segundo o jornal americano The New York Times.
Morando
no Ceará há seis anos, a venezuelana Ysis Rocio Avila Jaimes deixou seu país
natal por causa da grave crise econômica que atingiu a Venezuela. Segundo ela,
o salário mínimo já não era suficiente nem para garantir o básico.
"Um
salário mínimo não dava nem pra alimentar uma pessoa ainda menos uma família.
Eu vivi na pele. Ver que o teu salário só dava para comprar 1 kg de arroz no
mês... não dá. Ver teus filhos se deitar com fome... isso é muito cruel e muito
difícil”, relatou.
Mesmo
vivendo no Brasil, Ysis mantém familiares e amigos na Venezuela. Ela afirma
que, após a captura de Maduro, o clima no país é de tensão e cautela.
Amigos
relataram a ela que a população tem sido orientada a permanecer em casa para
preservar a própria segurança, além de estocar água, alimentos, combustível e
economizar bateria de celulares diante do risco de apagões e instabilidade.
Ao
receber a notícia da operação dos Estados Unidos, Ysis descreveu uma reação de
forte emoção. “Foi alegria, felicidade, liberdade e um despertar de esperança.
Foi uma resposta às minhas orações, assim como às orações de muitos
venezuelanos que tiveram que imigrar para não morrer de fome,
literalmente", declara.
Na
avaliação dela, o episódio pode representar o início de um processo de
reconstrução do país, embora reconheça que ainda há riscos de violência.
Questionada sobre a possibilidade de voltar a morar na Venezuela, Ysis afirma
que o desejo existe, mas que o momento ainda não é seguro.
"Nosso
país precisa iniciar o processo de reconstrução, garantindo para muitos de nós
ao menos a estabilidade de ter um emprego e que o dinheiro ganho com o nosso
trabalho possa assegurar uma boa vida às nossas famílias. Muitos de nós,
venezuelanos, ansiamos voltar à nossa terra, mas acho que, por enquanto, não é
o certo a se fazer."
A
jovem venezuelana mora no estado de Monagas. Segundo Sofia, as filas nos
supermercados estão enormes e o clima é de tensão e insegurança. Durante o
ataque, moradores relataram uma série de explosões em Caracas, a capital, e
foram ouvidos também estrondos e barulho de aeronaves em diferentes bairros.
Entenda o caso
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que Nicolás Maduro e a
primeira-dama Cilia Flores foram capturados por forças americanas durante uma
operação militar em território venezuelano e colocados sob custódia dos EUA,
com destino ao sistema judicial americano.
A
missão, batizada de Operação Absolute Resolve, foi autorizada por Trump quatro
dias antes de sua execução e acompanhada por ele em tempo real, a partir de seu
clube Mar-a-Lago, na Flórida. De acordo com o ex-presidente, Maduro e Cilia
Flores foram levados de helicóptero até o navio anfíbio USS Iwo Jima, no mar do
Caribe, e depois encaminhados aos Estados Unidos.
O
casal ficará detido no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn e
responderá a processo no Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York, onde já
havia denúncias formalizadas pela Procuradoria-Geral dos EUA. Ainda não há data
para o julgamento.
Trump
afirmou ainda que os Estados Unidos pretendem administrar a Venezuela de forma
interina por meio de um grupo ainda não anunciado, até que ocorra uma transição
de poder que ele classificou como “justa e legal”.
Pela
Constituição venezuelana, em caso de ausência do presidente, o poder deveria
ser assumido pela vice-presidente Delcy Rodríguez. A situação gerou disputa
política e jurídica, mas o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela determinou
que Rodríguez assumisse interinamente a Presidência, com o objetivo de garantir
a continuidade administrativa do país.
Havia
expectativa de que a líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, Maria
Corina Machado, pudesse assumir o comando do país, mas Trump afirmou que ela
“não tem apoio nem respeito na Venezuela”, indicando que Washington ainda não
definiu quem lideraria um eventual governo pós-Maduro.
(G1/CE)
